Preso em operação do MP, investigado pediu R$ 100 mil para pagar policiais do Deic, diz áu O Ministério Público de São Paulo deflagrou nesta terça-feira (21) uma operação para desarticular um grupo apontado como responsável por operar o sistema financeiro do PCC. Entre as provas reunidas na investigação está um áudio atribuído a Cleber Azevedo dos Santos, preso na ação, em que ele pede R$ 100 mil em dinheiro para, segundo a mensagem, pagar policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). No áudio, registrado em 23 de julho de 2025, Cleber diz a um homem identificado como Bruno que um cliente chamado Caio precisava trocar uma transferência bancária por dinheiro em espécie. "Deixa eu te falar. Aquele meu cliente lá, o Caio, ele precisa de R$ 100 mil aí pra trocar. Quer mandar TED e pegar em (dinheiro) vivo, porque ele precisar pagar os 'polícia' do DEIC, porque ele teve um problema. Tem R$ 100 mil pra ajudar ele aí?", afirma a gravação. A TV Globo entrou em contato com o advogado de Cleber e com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo para pedir um posicionamento sobre o conteúdo do áudio, no entanto, não obteve retorno até a publicação desta reportagem. 'Aniversário general' Um grupo de WhatsApp com o nome "aniversário general", ativo ao menos até 21 de novembro de 2023, reunia o coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo Luiz Carlos Pereira Martins, Cléber Azevedo, apontado como "companheiro" do Primeiro Comando da Capital (PCC), e Robson Martins Souza, segundo o Ministério Público de São Paulo. De acordo com a investigação, as mensagens trocadas no grupo tinham "caráter pessoal e social, com referências a eventos e celebrações". Para os promotores, o conteúdo demonstra uma relação de proximidade entre os participantes que ia além de contatos ocasionais. Além da participação no grupo, o Ministério Público afirma ter identificado registros de que o coronel Luiz Carlos Pereira Martins se dispôs a ajudar os investigados e a intermediar contatos com outras autoridades. Entre os nomes citados nas conversas estão o coronel José Augusto Coutinho, então comandante da ROTA, e o coronel identificado como "Patrício", que também aparece em planilhas apreendidas pela investigação como "cliente". Em outra conversa, de acordo com a investigação, Robson Martins Souza solicitou a Odair Alves da Silveira Filho o repasse de R$ 30 mil para que um cliente pudesse "pagar os amigos", expressão que, segundo o Ministério Público, era utilizada para se referir ao pagamento de propina a agentes públicos. Ainda conforme os investigadores, Cléber Azevedo dos Santos também questionou Amjad Ahmad sobre saldos disponíveis especificamente para "pagar a polícia". Anotação de pagamento e buscas A investigação também localizou uma anotação que registra um pagamento em dinheiro de R$ 1 mil em favor do coronel identificado como "Patrício". Segundo o Ministério Público, o valor teria origem em uma prática ilícita chamada "ticketagem". Diante dos elementos reunidos durante a apuração, o juiz responsável pelo caso autorizou a extração de dados e a apreensão de CPUs de computadores utilizados por policiais civis em suas unidades de lotação, além de buscas em viaturas utilizadas por eles. Para o Ministério Público, os elementos reunidos na investigação indicam um esquema de corrupção sistêmica, em que recursos do grupo criminoso e do PCC eram utilizados para cooptar policiais e garantir a continuidade das atividades ilícitas sem interferência. Empresas de fachada e contas de laranjas Segundo o Ministério Público, há registros de áudios e planilhas financeiras que citam policiais civis e militares. Eles, no entanto, não são alvos da operação desta terça nem foram denunciados ou acusados formalmente no caso. Ao todo, 13 pessoas foram presas. Dos investigados, 11 foram detidos durante toda a operação. Outros dois alvos, que já cumprem pena em presídios — identificados como Moja e Buiu — foram comunicados das novas ordens de prisão. Cinco investigados não foram localizados e são considerados foragidos. Entre eles está o doleiro Leonardo Meirelles, que já era procurado em outras operações. A ação é um desdobramento de três operações anteriores e aprofundou as investigações sobre um esquema considerado pelo Ministério Público como amplo e complexo para lavagem de dinheiro do PCC. Segundo a investigação, operadores financeiros ligados ao esquema recebiam dinheiro em espécie de clientes associados ao PCC e a outras atividades criminosas. Os valores eram inseridos no sistema bancário por meio de empresas e instituições financeiras digitais, que realizavam diversas transferências eletrônicas para ocultar a origem dos recursos. Ainda de acordo com o Ministério Público, os clientes indicavam as contas que deveriam receber os valores, movimentados por empresas de fachada e contas em nome de laranjas. Os recursos eram posteriormente utilizados para a compra de imóveis e até para o pagamento de agentes públicos, em troca de proteção e informações sobre operações. Disputa por casa na Riviera levou investigadores a novas provas Uma das principais provas da investigação surgiu após uma disputa entre um operador financeiro e um integrante da facção. Mensagens encontradas em celulares apreendidos mostram que os envolvidos recorreram ao PCC para resolver uma dívida de cerca de R$ 2 milhões relacionada à negociação de uma casa na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista. Na decisão judicial, o caso é descrito como o uso de um "mecanismo paralelo de resolução de conflitos" atribuído ao PCC, em substituição à Justiça comum. O operador envolvido na disputa é Cleber Azevedo dos Santos. Segundo o Ministério Público, ele é o autor de uma mensagem de áudio enviada a um integrante do PCC para explicar o conflito envolvendo a negociação do imóvel. Marcelo de Morais Oliveira é um dos detidos da Operação Janus e está envolvido no imbróglio do PCC por casa na Riviera de São Lourenço Reprodução/TV Globo Marcelo de Morais Oliveira também está entre os presos. Segundo a investigação, ele aparece nas tratativas relacionadas às divergências sobre o pagamento da casa na Riviera e ao chamado "tribunal do crime". Em uma das mensagens, Cleber afirma que Marcelo é "companheiro do PCC", assim como ele, e agradece aos "irmão" pela atenção dada ao caso. A investigação aponta que Cleber Azevedo dos Santos e Marcelo de Morais Oliveira divergiam sobre o pagamento de R$ 2 milhões pela negociação do imóvel. Bloqueio de R$ 10 milhões Durante a operação, cerca de 60 policiais do Batalhão de Choque e do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar cumpriram 18 mandados de busca e apreensão e 12 mandados de prisão. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 10 milhões em contas bancárias, aplicações financeiras, imóveis e veículos, além do sequestro de bens de 19 suspeitos e quatro empresas. Operação do MP de São Paulo mira rede de financiamento do PCC
'Aniversário general': Coronel da PM de SP tinha grupo de WhatsApp com preso em operação contra o PCC
Escrito em 21/07/2026
Preso em operação do MP, investigado pediu R$ 100 mil para pagar policiais do Deic, diz áu O Ministério Público de São Paulo deflagrou nesta terça-feira (21) uma operação para desarticular um grupo apontado como responsável por operar o sistema financeiro do PCC. Entre as provas reunidas na investigação está um áudio atribuído a Cleber Azevedo dos Santos, preso na ação, em que ele pede R$ 100 mil em dinheiro para, segundo a mensagem, pagar policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). No áudio, registrado em 23 de julho de 2025, Cleber diz a um homem identificado como Bruno que um cliente chamado Caio precisava trocar uma transferência bancária por dinheiro em espécie. "Deixa eu te falar. Aquele meu cliente lá, o Caio, ele precisa de R$ 100 mil aí pra trocar. Quer mandar TED e pegar em (dinheiro) vivo, porque ele precisar pagar os 'polícia' do DEIC, porque ele teve um problema. Tem R$ 100 mil pra ajudar ele aí?", afirma a gravação. A TV Globo entrou em contato com o advogado de Cleber e com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo para pedir um posicionamento sobre o conteúdo do áudio, no entanto, não obteve retorno até a publicação desta reportagem. 'Aniversário general' Um grupo de WhatsApp com o nome "aniversário general", ativo ao menos até 21 de novembro de 2023, reunia o coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo Luiz Carlos Pereira Martins, Cléber Azevedo, apontado como "companheiro" do Primeiro Comando da Capital (PCC), e Robson Martins Souza, segundo o Ministério Público de São Paulo. De acordo com a investigação, as mensagens trocadas no grupo tinham "caráter pessoal e social, com referências a eventos e celebrações". Para os promotores, o conteúdo demonstra uma relação de proximidade entre os participantes que ia além de contatos ocasionais. Além da participação no grupo, o Ministério Público afirma ter identificado registros de que o coronel Luiz Carlos Pereira Martins se dispôs a ajudar os investigados e a intermediar contatos com outras autoridades. Entre os nomes citados nas conversas estão o coronel José Augusto Coutinho, então comandante da ROTA, e o coronel identificado como "Patrício", que também aparece em planilhas apreendidas pela investigação como "cliente". Em outra conversa, de acordo com a investigação, Robson Martins Souza solicitou a Odair Alves da Silveira Filho o repasse de R$ 30 mil para que um cliente pudesse "pagar os amigos", expressão que, segundo o Ministério Público, era utilizada para se referir ao pagamento de propina a agentes públicos. Ainda conforme os investigadores, Cléber Azevedo dos Santos também questionou Amjad Ahmad sobre saldos disponíveis especificamente para "pagar a polícia". Anotação de pagamento e buscas A investigação também localizou uma anotação que registra um pagamento em dinheiro de R$ 1 mil em favor do coronel identificado como "Patrício". Segundo o Ministério Público, o valor teria origem em uma prática ilícita chamada "ticketagem". Diante dos elementos reunidos durante a apuração, o juiz responsável pelo caso autorizou a extração de dados e a apreensão de CPUs de computadores utilizados por policiais civis em suas unidades de lotação, além de buscas em viaturas utilizadas por eles. Para o Ministério Público, os elementos reunidos na investigação indicam um esquema de corrupção sistêmica, em que recursos do grupo criminoso e do PCC eram utilizados para cooptar policiais e garantir a continuidade das atividades ilícitas sem interferência. Empresas de fachada e contas de laranjas Segundo o Ministério Público, há registros de áudios e planilhas financeiras que citam policiais civis e militares. Eles, no entanto, não são alvos da operação desta terça nem foram denunciados ou acusados formalmente no caso. Ao todo, 13 pessoas foram presas. Dos investigados, 11 foram detidos durante toda a operação. Outros dois alvos, que já cumprem pena em presídios — identificados como Moja e Buiu — foram comunicados das novas ordens de prisão. Cinco investigados não foram localizados e são considerados foragidos. Entre eles está o doleiro Leonardo Meirelles, que já era procurado em outras operações. A ação é um desdobramento de três operações anteriores e aprofundou as investigações sobre um esquema considerado pelo Ministério Público como amplo e complexo para lavagem de dinheiro do PCC. Segundo a investigação, operadores financeiros ligados ao esquema recebiam dinheiro em espécie de clientes associados ao PCC e a outras atividades criminosas. Os valores eram inseridos no sistema bancário por meio de empresas e instituições financeiras digitais, que realizavam diversas transferências eletrônicas para ocultar a origem dos recursos. Ainda de acordo com o Ministério Público, os clientes indicavam as contas que deveriam receber os valores, movimentados por empresas de fachada e contas em nome de laranjas. Os recursos eram posteriormente utilizados para a compra de imóveis e até para o pagamento de agentes públicos, em troca de proteção e informações sobre operações. Disputa por casa na Riviera levou investigadores a novas provas Uma das principais provas da investigação surgiu após uma disputa entre um operador financeiro e um integrante da facção. Mensagens encontradas em celulares apreendidos mostram que os envolvidos recorreram ao PCC para resolver uma dívida de cerca de R$ 2 milhões relacionada à negociação de uma casa na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista. Na decisão judicial, o caso é descrito como o uso de um "mecanismo paralelo de resolução de conflitos" atribuído ao PCC, em substituição à Justiça comum. O operador envolvido na disputa é Cleber Azevedo dos Santos. Segundo o Ministério Público, ele é o autor de uma mensagem de áudio enviada a um integrante do PCC para explicar o conflito envolvendo a negociação do imóvel. Marcelo de Morais Oliveira é um dos detidos da Operação Janus e está envolvido no imbróglio do PCC por casa na Riviera de São Lourenço Reprodução/TV Globo Marcelo de Morais Oliveira também está entre os presos. Segundo a investigação, ele aparece nas tratativas relacionadas às divergências sobre o pagamento da casa na Riviera e ao chamado "tribunal do crime". Em uma das mensagens, Cleber afirma que Marcelo é "companheiro do PCC", assim como ele, e agradece aos "irmão" pela atenção dada ao caso. A investigação aponta que Cleber Azevedo dos Santos e Marcelo de Morais Oliveira divergiam sobre o pagamento de R$ 2 milhões pela negociação do imóvel. Bloqueio de R$ 10 milhões Durante a operação, cerca de 60 policiais do Batalhão de Choque e do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar cumpriram 18 mandados de busca e apreensão e 12 mandados de prisão. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 10 milhões em contas bancárias, aplicações financeiras, imóveis e veículos, além do sequestro de bens de 19 suspeitos e quatro empresas. Operação do MP de São Paulo mira rede de financiamento do PCC

